26 Janeiro 2004
A propósito de "tempo", "vida" e “morte”, temas que Fehér nos deixou

Bem sei que hoje não se fala de outra coisa: vão aparecer as críticas, as estórias, memórias, elogios, lamentos, insinuações... mas, na verdade, nada disso devia hoje interessar. Em momentos destes, continuo a aperceber-me de que há pessoas a quem os detalhes mais importantes sobre a ironia da vida continuam a escapar.

O Fehér não foi um mártir em Portugal; foi um lutador como tantos outros. Todos acumulamos alegrias e dissabores, amigos e inimigos, sucessos e insucessos; é a história das nossas vidas. Aquilo que aconteceu com ele na passagem pelo futebol português é o que acontece todos os dias com qualquer outra pessoa: nesta vida “tenta-se”, “arrisca-se”, “opta-se”, “acerta-se”, “falha-se”, “celebra-se”, “chora-se”; sonha-se sempre. E quando tudo acaba num repente, em circunstâncias como as de ontem, porque é que alguém há de ter culpa? Que responsabilidade tem o árbitro pelo cartão amarelo; que responsabilidade têm o Pinto da Costa e o José Veiga pelas tricas em que envolveram o jogador (afinal, um produto do futebol); que responsabilidade têm os painéis publicitários que – acusam alguns – estavam ali a barrar o caminho de uma ambulância? Que tem isso a ver com a paragem de um coração?

Aquilo que foi a vida de Fehér e aquilo que foi a sua morte não podem ser objecto de comparação. Ninguém procura atenuar as tensões do dia-a-dia a pensar que o fim do outro pode estar próximo e que, portanto, há que poupá-lo (a menos que o fim já esteja diagnosticado). Felizmente, a vida exige o suficiente de nós para que, de costume, nem haja tempo de pensar no fim – o nosso e o dos outros. Chocante é quando 'ela' nos aparece, inusitada, à frente dos olhos, obrigando-nos a encará-la. Isso aconteceu ontem e devia obrigar-nos a pensar. Por exemplo: se o Fehér cá estivesse, o contencioso entre clubes sobre a sua carreira futebolística iria seguramente continuar. É natural – e qual era o problema? O que importa agora, perante toda esta ironia do destino, é decidir uma coisa: e agora?

Ao longo da noite de ontem, interessei-me igualmente pelas diferenças no trabalho dos vários órgãos de comunicação. A SportTV, há que dizê-lo, tratou o momento com uma grande dignidade. Minutos depois da queda do jogador, quando todos já víramos as imagens três ou quatro vezes, o pivôt Miguel Prates [cujas dificuldades só revelaram uma grande humanidade] anunciou que não valia a pena continuar a passá-las porque “não acresceriam nada ao estado de saúde do jogador” e não possuíam relevância noticiosa que justificasse a repetição insistente. A emissão avançou para outros assuntos e só bem mais tarde as imagens de Fehér voltaram à SportTV. Percebe-se a opção: tinha passado algum tempo sobre os acontecimentos e muitos telespectadores só então estariam a ligar a tv para procurar imagens e perceber o que sucedera. É claro que, nessa altura, os espectadores desprevenidos já não precisavam da SportTV para nada. As imagens da estação já tinham sido cedidas à RTP, que as passou em loop até à náusea, e a SIC também tinha gravações da queda do jogador no relvado registadas de um outro ângulo, que exibiu pelo mesmo esquema (mostra-volta ao princípio-mostra-volta ao princípio). Mais do que o desrespeito pelo jogador e pelas pessoas ligadas a ele, impressionou-me a maneira ávida como se explorou e se esgotou logo ali o drama e como, nestes contextos, se contribui para banalizar a morte. As mesmas imagens, que nos deixaram a todos de boca aberta nos primeiros minutos, já quase não produziam efeito ao fim da noite. A sequência já se conhecia de cor e o impacto diluira-se entretanto.

Mais curioso foi o trabalho da TVI, mas a esse jornalismo(?) habilidoso já nós estamos habituados. A estação foi a última a interromper a emissão corrente – deve ter sido um reboliço na redacção do canal – mas mandou à pressa um jovem para o hospital de Guimarães para, claro!, ser a primeira televisão a dar conta da morte do jogador, quando ainda não havia confirmação nem da parte da direcção do Benfica, nem da equipa médica do hospital. Muito haveria a dizer sobre estas jogadas de antecipação da TVI e sobre o registo habitual das notícias que passam no canal, mas a verdade é que há já um bom tempo que não consigo perder tempo a vê-los, quanto mais a analisá-los.

A mim, o que me tocou realmente foi a lição que daqui retirei sobre o tempo e a sua implacável ironia. Será que alguma coisa teria acontecido se a partida tivesse acabado uns minutos antes e o jogador tivesse tido tempo de serenar, após o esforço físico do jogo? Será que foram muitos, aqueles que pensaram que o jogador estava a “queimar tempo” para o final do jogo antes de se aperceberem de que o final, na realidade, era o de outra coisa? E será que foram muitos os que, como eu, olharam para o relógio no topo do ecrã, onde não seria suposto contarem-se mais do que três ou quatro minutos, mas onde se contaram, em cadência desapiedada, os 12, 13, 14, 15 minutos de um tempo suspenso, que já só evoluía para reduzir a esperança sobre Fehér?

Bom. Para o jogador do Benfica (que interessam os clubismos nesta altura?), acabou tudo de repente. A celebração de mais uma vitória nos balneários ficou por fazer, o desfecho das batalhas jurídicas ficou por conhecer, os papéis para o casamento ficaram por assinar, a concretização de uma brilhante carreira – quem sabe? – ficou por confirmar. A morte que chega de repente é sempre especialmente amarga. Houve quem não se tivesse importado muito com isso – aproveitando a deixa do Nuno num post anterior lembro aqueles anónimos que riram de telemóvel em punho por detrás dos repórteres, nos directos do hospital – e houve quem perdesse mais tempo com os clichés. Quando a confirmação da morte surgiu, a SIC Notícias, ridiculamente, apressou-se em exibir a elucidativa legenda “Miklos Fehér 1980-2004” (uma achega para o espectador desatento) para depois ter de corrigir a patetice feita à pressa para o correcto “Miklos Fehér 1979-2004”. Pois é, o apelo do imediato tem contratempos como estes.

Pela minha parte, depois de ter desligado a televisão e voltado costas ao circo mediático, já tive tempo de reflectir sobre muitas coisas. E a minha própria, querida vidinha ganhou para mim um pouco mais de valor.

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